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Aos 72 anos, o alagoano Antônio Carneiro dos Santos ou Seu Carneiro, como é conhecido no Capão Redondo, na Zona Sul de São Paulo, diz que só frequentou a escola por “um mês” e que tudo que sabe aprendeu "com a vida". Apesar do pouco estudo, hoje ele contribui para a formação de moradores desse violento bairro da capital paulista.
Nesta quinta-feira (23), quando se comemora o Dia Mundial do Livro - data instituída pela Unesco -, o ex-feirante falou ao G1 da experiência da ONG Reviver Capão, onde mantém atualmente uma biblioteca comunitária com cerca de 20 mil títulos.
Desde a criação do primeiro espaço de leitura, há seis anos, ele não parou mais. Seu Carneiro conta ter ajudado a criar outros 12, espalhados pela Zona Sul e Grande São Paulo. Entre elas, está uma biblioteca em uma base da Polícia Militar no Jardim Ranieri, na Zona Sul. Ele diz ter dado o pontapé inicial para a formação das bibliotecas, com a doação dos livros. Ao todo, já doou mais de 60 mil títulos.
a biblioteca do Seu Carneiro, na ONG do Capão Redondo, parte dos livros fica distribuída em gôndolas, uma “influência” dos tempos de comerciante. As obras e revistas foram doadas à associação por moradores da região e não param de chegar. “Está difícil encontrar espaço.” E o esforço rendeu frutos. Segundo ele, escolas da região recomendam sua biblioteca como fonte de pesquisa aos alunos, e trabalhadores mudaram seus hábitos para usar o espaço de leitura. “Não tenho dúvida de que a biblioteca estimula a leitura. Tem uma moça que trabalha como faxineira em uma fábrica aqui perto que criou o hábito de todos os dias passar aqui. O pessoal de uma loja grande vem ler na hora do almoço”, exemplifica ele, que paga do próprio bolso os R$ 3 mil de aluguel do imóvel e não aceita doações em dinheiro, apenas trabalho voluntário.
Foi o descaso do poder público em relação ao Capão Redondo que o levou ao trabalho comunitário. “Pela brutalidade que nós vemos do pessoal político... Eles não olham para o pessoal mais pobre. Aqui não tinha nem campo de futebol.” A ONG, que também oferece à população 39 cursos profissionalizantes a um preço simbólico (R$ 15, para pagar o professor), conta hoje com 2,6 mil alunos.
O exemplo do “bibliotecário” do Capão Redondo já foi notícia em jornais como o New York Times, conta com orgulho o alagoano que há 40 anos trabalha na região. Neste ano, ele foi convidado para dar palestras nos Estados Unidos e na América Latina. “É um sonho totalmente realizado. Eu gosto de ficar aqui. É um trabalho de formiga e que tem que ter muita coragem, com a idade que eu tenho.”
fonte: Globo
data: 28/04/2009
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